Ficha de referência cultural
Entrada do museu dentro da estação do metrô República. Foto: Simone Scifoni, 2022.
O Museu da Diversidade Sexual (MDS) é um considerado a primeira instituição museológica dedicada à
preservação, valorização e exposição memorial da comunidade LGBTQIA+. Surgiu em 2012, com a ideia de
romper com os formatos tradicionais geralmente encontrados em museus, a partir da busca pela
proximidade com o movimento social LGBTQIA+. Assim, inclui membros da comunidade e coletivos
LGBTQIA+, com objetivo de refletir sobre a diversidade sexual a partir de sua história e luta por
direitos e com intuito de auxiliar na busca e na promoção de direitos para a transformação social e
o exercício da cidadania. Sua localização na estação República do metrô, do lado de fora das
catracas, potencializa as possibilidades de interlocução com o público: entre usuários de transporte
público e moradores do entorno, entre visitas e participações em ações extramuros. Sua localização
no território LGBTQIA+ da República/Arouche faz com que seja um lugar de acolhimento, de ser e estar
das identidades. O MDS é, assim, também um centro de sociabilidade. Aos arredores da estrutura é
comum a circulação de mulheres trans e travestis, entre outras pessoas que aparentam estar em
situação de rua, muitas vezes advindas do acesso pela rua do Arouche. O Museu da Diversidade Sexual
é uma estratégia de mediação, educação e política que convida o público a compreender seus corpos,
lugares e histórias como parte do patrimônio e da museologia.
Criado como Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, foi a
primeira iniciativa da América Latina e do hemisfério sul com proposta de trabalhar exclusivamente a
temática da diversidade sexual. Em 2018, o Centro de Memória ganhou o estatuto de museu pelo Decreto
nº 63.375 que confere as seguintes atribuições:
1. formação de acervo, divulgação e publicação de documentos, estudos, relatos, depoimentos e outros
materiais referentes à memória e à história política, econômica, social e cultural da comunidade
LGBT no Brasil;
2. promoção e apoio a eventos culturais, cursos, conferências, palestras e pesquisas, com o objetivo
de promover e divulgar a produção cultural relacionada com a diversidade sexual. (São Paulo, 2018)
O MDS recebe em sua programação exposições temporárias e itinerantes que ocupam outros museus do
Estado de São Paulo. As exposições recebem artistas que tratam sobre a diversidade sexual, ativismo
LGBTQIA+ e a história sociocultural da comunidade. Destacamos entre as exposições feitas: As
representações LGBT na música brasileira (2016); Mostra Solidão (2017-2018), trazendo o tema da
exclusão social experienciada por jovens e idosos LGBTQIA+ e Plural 24h (2019), refletindo sobre o
dia-a-dia LGBTQIA+ por meio de fotos e desenhos. Durante a pandemia, o museu lançou a exposição
Queerentena com artistas LGBTQIA+ brasileiros que produziram arte durante esse período. A exposição
foi um sucesso, pois o MDS foi o segundo museu paulista mais visitado em 2020 (Bonin, 2021). Muitos
dos trabalhadores do museu também fazem parte da comunidade LGBTQIA+, o que confere sensibilidade na
produção da programação e das atividades educativas e no acolhimento e respeito aos visitantes. Com
isso, também se estabelece um compromisso social da instituição.
Ademais, como espaço de acolhimento e socialidade, é um espaço de entrada gratuita, possibilitando
que os visitantes e grupos interessados possam entrar em qualquer momento de seu período de
funcionamento. A equipe do Inventário Participativo inclusive fez reunião no espaço do museu. O MDS
também dialoga constantemente com os coletivos e movimentos sociais LGBTQIA+, entre eles o Coletivo
Arouchianos.
O museu até o momento (julho de 2022) aloja uma estrutura de pequeno porte. Sua expansão foi
inicialmente anunciada em 2014, através de sua transferência para o Casarão Franco de Mello, na
Avenida Paulista, região nobre de São Paulo. Embora sua ampliação seja desejada, a mudança de local
resultaria em uma direta ruptura contextual histórica entre o equipamento e o território das regiões
República e o Largo do Arouche já que o museu está interligado ao território pela proximidade física
e simbólica que soma mais de 60 anos de ocupação por membros da comunidade LGBTQIA+. Cabe destacar
que a comunidade LGBTQIA+ da região Arouche e República pertencem, em sua maioria, às classes mais
baixas, moradores de extremos da cidade e bolsões periféricos da capital, corpos pretos, pardos,
indígenas e muitas vezes migrantes e imigrantes. Alguns movimentos sociais logo mostraram-se contra
a saída do museu do metro da República. Em dezembro de 2021, foi anunciado que o museu permanecerá
no metrô República, porém com espaço maior: de 100m² passaria a ocupar uma nova área, de 540m²
(Pinhoni, 2021). O MDS também seria ampliado com outra sede na Alameda Santos, rua paralela à
Avenida Paulista, imóvel já pertencente ao Estado de São Paulo, com aproximadamente 1000m².
Em 2022, o MDS completaria 10 anos de sua formação e a inauguração de sua ampliação no metrô
República estava planejada para junho do mesmo ano. Contudo, após decisão judicial, foi declarado
seu fechamento por tempo indeterminado. Às vésperas da exposição Duo Drags, que exibiria diversas
fotografias com artistas da arte drag em São Paulo, de autoria de Paulo Vitale, o equipamento
recebeu pedido de suspensão do contrato entre a Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado
de São Paulo e o Instituto Odeon, organização social que faz a gestão atual do MDS. De autoria do
deputado estadual Gil Diniz (PL), o pedido questiona a legalidade contratual e a idoneidade do
Instituto Odeon devido aos valores repassados. A decisão judicial gerou imensa comemoração do
deputado em suas redes sociais, comemoração essa feita com discursos preconceituosos. Embora não
imponha o fechamento do museu, na prática, a decisão judicial inviabiliza seu funcionamento. Dentro
do contexto político atual, a descontinuidade do MDS reflete o crescimento das violências e
repressões à comunidade LGBTQIA+ dos últimos anos.
Na fachada do museu, desde o dia de seu fechamento em 29 de abril de 2022, cartazes e faixas se
tornaram presentes, pedindo sua reabertura. Em protesto, cerca de 100 pessoas se reuniram ,como as
drag queens Kaká Di Polly e Salete Campari, a ativista Neon Cunha, dentre outras personalidades. Em
junho, na parada LGBT de São Paulo, foi apresentado o Bloco Museu da Diversidade Sexual (Re)Existe,
criado para atrair visibilidade ao impasse. Pronunciamentos pela reabertura do museu também seguiram
nas redes sociais, com inúmeras declarações levantando a importância da salvaguarda da memória da
comunidade e cobrando os órgãos públicos a agirem. Uma dessas manifestações foi a petição pública
Pela Imediata Reabertura do Museu da Diversidade Sexual do Estado de SP, elaborada em 13 de maio de
2022 pelo Coletivo Arouchianos.
Cartazes colados na fachada do museu em protesto contra seu fechamento. Paulo Vitale/ Reprodução Instagram
BONIN, Robson. Museu da Diversidade Sexual vira fenômeno de público em 2020. Veja, 28 janeiro de 2021. Acesse aqui
Coletivo Arouchianos LGBTHQIAPD+. O Museu da Diversidade precisa e vai ficar integralmente na região da República e do Largo do Arouche. 17 de ago. de 2021. Facebook: Arouchianos. Acesse aqui
IKEDA, Rafael. Bloco Museu da Diversidade Sexual (Re)Existe. Deu Click, São Paulo, 16 de jun de 2022. Acesse aqui
Museu da Diversidade em São Paulo fecha após decisão judicial. Nexo, 2022. Acesse aqui
PAULO VITALE. Por enquanto só podemos ver a exposição pela vitrine. 30 abr. 2022. Instagram: @paulovitale.
PINHONI, Marina. Governo de SP anuncia expansão do Museu da Diversidade Sexual e criação dos museus da Favela e das Culturas Indígenas. G1, 6 dezembro de 2021. Acesse aqui
SÃO PAULO (Estado). Decreto nº 63.375, de 04 de maio de 2018. Altera a denominação e a área do equipamento cultural que especifica, da Secretaria da Cultura, e dá providências correlatas. São Paulo, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 2018.
OUTRAS REFERÊNCIAS CULTURAIS RELACIONADAS
Praça da República, Largo do Arouche, Calendário LGBTQIA+